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Sobre Tropa de Elite

24 setembro 2007

(esse post é um email escrito antes na lista da Contracampo, por isso algumas citações sem sentido)

A verdade é que saí do Espaço ainda meio baqueado, juntando as informações e vendo se mudava minha cotação do filme, cheguei em casa bastante confuso, mas não rolou…continua a bola preta e o moralmente condenável mesmo.

concordo com as afirmações de que o que o filme mostra é que o preço para se virar um soldado do Bope é altíssimo – fim de vida pessoal, desumanização, falta de outras perspectivas de vida – mas são todos preços PESSOAIS. Virar um soldado do Bope é, no fundo, um sacrifício da própria vida para servir à sociedade. Afinal, não se vira soldado do Bope pelo mérito do reconhecimento, para se sentir melhor ou mesmo pelo cheiro de sangue. O que o personagem do Wagner Moura quer é encontrar um sucessor, porque acredita que aquela função é necessária. Não à toa, os soldados corruptos ficam na PM, e, se vão entrar no concurso para o BOPE, são escrotizados até não poder mais. Estamos do lado dos honestos e bem-intencionados, sempre (ainda que esses mocinhos, concordo, estejam longe de ser heróis).

me incomoda muito que o José Padilha fique cheio de raiva de PM e de burguezinho da Zona Sul (porque, afinal, sempre que a câmera aponta para cada uma dessas duas instâncias é num tom jocoso e muitas vezes babaca mesmo), mas nunca leve em consideração – realmente – o que significa matar não um inocente, mas mesmo um bandido. Como exemplo, a cena em que o Wagner Moura dá a ordem para o policial acertar o PM que trafica e o bandido que vende, para matar “dois coelhos em uma cajadada só”. Ou o fato do Neto matar 30 pessoas na favela para conseguir a segurança do Papa – coisa que o filme mostra em 30 segundos – e rolar toda uma construção dramática para sua morte, que no fundo deveria ser mais uma, como todas aquelas outras.

Concordo, em parte, com a afirmação de que é um filme documental. Existe, sim, lá uma função de mostrar o que ainda não foi colocado em pauta no Cidade de Deus (e em suas continuações): o lado dos policiais, a importância dos usuários na cadeia, a existência das ONGs. Os morros são reais, a estrutura é direta, existe a urgência de falar, sim, de algo que está acontecendo, da forma como está acontecendo. Mas, para o filme, a PM só faz merda, as ONGs não conseguem nem comprar os óculos do menino que tem problema de visão, e os jovens que participam dela são filhinhos de papai que pensam em cheirar e transar na “hora do trabalho”, (exceção para a Fernanda Machado, uma personagem bem-intencionada, mas ingênua), e o Bope, bem, o Bope resolve.

Agora, é óbvio que também que é um filme de ficção, e se o José Padilha não tem noção do que significa isso (de acordo com sua entrevista na França, onde dizia que só não fez uma obra documental porque seria morto), o filme tem. Existe lá uma construção dramática forte, e ela só atende a poucos personagens (mais especificamente, ao Wagner Moura e aos três tenentes, incluindo o corrupto). O resto serve como fantoche para o que o filme precisa passar. Eu discordo com a afirmação do Bernardo de que a voz em off é de um psicopata porque isso, sim, é colocar um julgamento de valor que o filme, em si, não coloca. É de um cara que mata, e que acredita que matar, sem piedade, faça parte do trabalho dele. E que acredita no trabalho dele. A única hora realmente em que ele assume a culpa de ter feito algo errado é na parte final do filme, quando sobe o morro e tortura inocentes (ainda que a única cena forte de tortura que mostra é quando ele acerta o culpado). Se esse é seu único erro, significa que o resto é de acertos, e o filme não faz NADA para que essa hipótese seja desmentida. Quando digo que é um Nascido Para Matar ao contrário, é porque, dessa vez, o ponto-de-vista está no tenente, e me parece que Tropa de Elite não sabe bem o que significa fazer isso.

Afinal, se ele coloca a culpa do tráfico no usuário – o que faz sentido, ainda que de forma muito simplista -, no Estado e na PM corrupta – o que faz sentido, ainda que no filme apareça também de forma simplista -, o Bope é que não está errado. E, assim, o filme, que, sim tem a proposta de discutir tudo isso de forma SÉRIA, acaba acavalando afirmações muito simplistas e complicadas.

E o pior é que o Padilha é um bom diretor de ficção. Seu filme é forte, envolvente, não fica cheio de floreios e não subestima a inteligência de espectador nenhum (as duas últimas afirmações, naturalmente, não servem para Cidade de Deus). Ele conta com um puta elenco bem trabalhado (em especial o Wagner Moura, que é realmente um grande ator) e consegue, sim, alcançar uma ambiguidade bastante delicada uma série de vezes. O problema é que ele fez um estudo humano – um caminho de aprendizagem, segundo o Ruy -, “comprovou” a afirmação da cartela inicial, mas de forma muito superficial percorreu o “meio” no qual o personagem é moldado.

E por isso tudo minha bola preta é mantida. Mas aceito afirmações contrárias, se ninguém achar que a conversa no Espaço (obs: essa conversa está relatada, de dois pontos-de-vista bizarramente diferentes, no blog da Zé Pereira do Festival, que não darei o link, e no diário dos editores da Contra) já deveria ter servido como contra-argumentação disso tudo.

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Os Insetos

10 setembro 2007

Bug, para mim, é um filme que está sofrendo do mesmo hype que Coeurs, do Resnais. A vontade incondicional de gostar de um realizador que, há algum tempo, andava sumido, tanto por não filmar, quanto por ser alvo de julgamentos apressados da crítica padrão. Mas, se eu preciso rever o Resnais para realmente estar ciente de minha posição em relação a ele, de cara posso afirmar que o Friedkin novo não me encanta muito.

Acho que, em boa parte das críticas que eu li, o tom “materialista” do filme é exaltado. Uma obra sobre objetos e corpos, todos dizem. Isso, para mim, funciona perfeitamente na primeira metade de Bug, quando um zoom no ventilador assusta simplesmente pelo barulho e pela forma dele rodar; quando os jump-cuts nos colocam em um estado de desequilíbrio e tensão com o ambiente; quando as atuações carregam uma carga de artificialismo teatral que nos desloca do quarto; quando todos os elementos parecem existir apenas numa superfície que nunca poderá nos dar o algo mais que aquele filme parece pedir. Até então, Bug é muito bom, em seu projeto de gênero que, propositalmente, não se completa.

Mas aí vem a segunda parte, e todos esses elementos ganham um aura metafórica que justifica sua estranheza anterior. Os corpos e objetos de Friedkin não são mais matéria bruta, pois servem de exemplo para uma série de outras interferências. Viram corpos-sintoma, corpos-metáfora, corpos que precisam de um hífen para se completar. E, quando se transformam nisso, não me parece que o diretor tenha alguma coisa a mais para acrescentar sobre paranóia urbana, solidão do homem contemporâneo, traumas de guerra ou coisa que o valha. Bug vai ficando mais e mais bobo a cada minuto que passa.

Nessa segunda parte do filme, tenho inclusive a impressão de que Friedkin filma de qualquer jeito, como se, quando seu filme tem de ficar direto, ele não sabe exatamente o que fazer. Investe em uma cenografia de filme sci-fi de baixo orçamento, deixa o problema com os atores e esquece a câmera. De certa forma, parece concordar que tudo já está tão explícito (as feridas, os diálogos, o conceito) que não existe mais lugar para sua interferência.

É por isso que, de certa forma, concordo com o restante da crítica. Quando Bug é um filme corpóreo, materialista, ele é muito bom. Mas, infelizmente, ele não é. E quando desiste de tudo isso para, sim, se posicionar politicamente (mesmo que muitas vezes pareça uma metáfora não solucionada, que ainda assim é metáfora), vai, aos poucos, perdendo todo o seu interesse.