Archive for janeiro \30\UTC 2009

roupas

30 janeiro 2009

despir os corpos
– e sempre –
vestir o resto

os olhares tortos
e os sorrisos frouxos

a dor
soterrada
sob sete camadas de pele

escolha

30 janeiro 2009

para todo pote
de ouro

há um arco-íris
e um assaltante

You Just Have to Love Me Till The Sun Shines…

23 janeiro 2009

É impressão minha, ou só agora eu reparei que o Dave Davies fez essa música pruma prostituta?

Tá, tem umas partes que não encaixam, só pra disfarçar, mas a frase “You just have to love me ‘till the sun shines”, repetida a cada verso, é bem explícita.

E todo o contexto da canção, falando que a mulher não precisa fazer nada por ele, desde que o ame até o amanhecer, que os dois são tipos desprotegidos da sociedade, bem, me parece um tanto claro.

Como se não bastasse, a música começa com os versos “You don’t have to look at me/ You don’t have to smile at me”, no meio tem o verso “Baby, you can kiss my friends” e, no refrão, tem até “Take my money, I don’t mind”.

E tudo isso em 1967. É por essas e outras que os Kinks são uma das bandas mais subestimadas da época.

Abaixo, segue a letra:

“You don’t have to look at me
You don’t have to smile at me
You just have to love me ‘til the sun shines

You don’t have to cook for me
You don’t have to laugh with me
You just have to love me ‘til the sun shines

Take my money, I don’t mind
You can be such a helpless kind
You just have to love me ‘til the sun shines

You don’t have to sleep with me
Rest your head upon my knee
You just have to love me ‘til the sun shines

Baby, you can wear my clothes
Play my records, stay in my home
Long as you just love me ‘til the sun shines

You can take it, I don’t mind
Please don’t be such a helpless kind
You just got to love me ‘til the sun shines

Baby, baby I don’t know what I’m doin’
Everything I do, it turns to ruin

Baby, you can kiss my friends
Baby, there’s nothing that I’ll end
Long as you just love me ‘til the sun shines

You don’t have to walk the streets
When there’s someone waiting here
Come on, baby, love me ‘til the sun shines

Come on, baby, I don’t mind
Two lonely people, the helpless kind
Come on, baby, love me ‘til the sun shines

You don’t have to look at me
And you don’t have to smile at me
You just have to love me ‘til the sun shines

You don’t have to cook for me
And you don’t have to laugh with me
You just have to love me ‘til the sun shines

Take my money, I don’t mind
You can be such a helpess kind
You just have to love me ‘til the sun shines”

Recado para o povo da Rua Maceió

21 janeiro 2009

Andei treinando, e estou de volta à velha forma.

Próxima vez que for a São Paulo, recupero o trono.

A solução para madrugadas insones

21 janeiro 2009

Aqui.

(E tem gente que ainda acredita nessa arte arcaica chamada literatura).

Like a social statts…

19 janeiro 2009

O crítico da Pitchfork já escreveu: os dois highlights do novo disco do Animal Collective – já à venda nos melhores Soulseeks e Emules da internet – são, sem dúvida, My Girls e Brother Sport. (E, de quebra, deu ao Merriweather Post Pavilion a nota de 9.6, que não é pouca coisa).

O Ruy, que é um rapaz informado e bacana, já críticou o Brother Sport na Camarilha dos Quatro, e anda espalhando pelos quatro cantos que esta é a melhor música do disco.

Eu, que não sou um rapaz informado e muito menos crítico de música, fico com My Girls.

A justificativa é muito simples: basicamente, eu não consigo parar de ouvi-la. (Em parte porque eu não resista a canções pop – e não há dúvida que My Girls seja, dentro da experimentação comum da banda, uma grande canção pop – que te carreguem em um crescente de texturas, vozes, climas, num sentido de feel fine quase místico que só as grandes canções conseguem alcançar).

E, nesta segunda-feira às onze e meia da noite, ter uma música que ela, só ela, simplesmente ela, te deixa com vontade de sair da letargia do computador e ir sozinho para a Maldita, na esperança de que, às três da manhã, alguém a toque e você dance desengonçado, no canto da pista, sabendo que não existe muita coisa melhor no mundo, já explica bastante o que eu sinto ao ouvi-la em casa no fone, sem parar, balançando os braços e a cabeça incessantemente.

Para quem não ouviu, tem no myspace da banda.

E o resto é brincadeira de criança.

A Carta

18 janeiro 2009

Ele acordou, levantou-se da cama e, ainda bocejando, foi pegar o jornal do dia.

Preparava-se para ler o caderno de economia quando reparou, entre as contas de banco, de água e de telefone, uma simples carta, escrita à mão, em um pequeno e simpático envelope.

Nem tinha escovado os dentes quando deixou o jornal de lado e examinou a correspondência.

Descobriu, olhando apenas para o remetente e o destinatário, que Claudia Garcia, vivendo na desconhecida cidade de São José do Rio Pardo, tencionava falar com Odivaldo, e que, segundo o endereço no envelope, Odivaldo morava no pequeno apartamento quarto-e-sala da Glória onde aquele homem vivia.

O problema é que aquele homem não conhecia Claudia Garcia alguma, e nem sequer chamava-se Odivaldo.

(E ele anotou mentalmente que devia agradecer aos pais por ter ganhado o nome comum de Luis Alberto).

Ainda assim, acostumado a receber emails ou, no máximo, esse-eme-esses, Luis Alberto calçou seus chinelos, pegou os óculos de leitura, aqueceu um café e abriu delicadamente o envelope com uma velha faca de cozinha.

Clau – era assim que Claudia assinava, carinhosamente, no fim do texto, e Luis Alberto pensou que, para quem escrevia a um tal de Odivaldo, ela até tinha um apelido simpático – pedia desculpas pela demora na carta, que o tempo andava escasso, mas que lá estava ela escrita, semanas depois daquela noite linda que os dois viveram, ele e ela, Claudia e Odivaldo, em meio ao turbilhão daquela cidade enorme que era São Paulo, que não tinha nem estrelas e que os dois não gostaram nada, mas que ela gostou dele, gostou mesmo, de verdade, mesmo que tivesse sido apenas uma noite e que ela não tivesse o email, nem o telefone, e que sorte ter conseguido o endereço, mas que ele escrevesse de volta, por favor, que ela sentia saudades, beijos estrelados.

Luis Alberto pensou que Claudia não escrevia muito bem, achou a carta confusa e deixou jogada, no sofá, entre o jornal e as contas, que ele também já estava atrasado para o trabalho, tinha de escovar os dentes e tomar banho e nem sequer comera ainda o pão na chapa que alimentava todas as suas manhãs.

Praguejando contra a perda de tempo ocasionada por aquela carta imprópria e mal escrita, Luis Alberto pegou o ônibus para o escritório.

Durante as enfastiosas e sonolentas horas de labuta, no entanto, Luis Alberto começou, vagarosamente, a pensar naquelas frases confusas, naquelas palavras ordinárias, todas elas, uma a uma, e a se perguntar como era a voz daquela Claudia Garcia de São José do Rio Pardo, e a refletir como, na verdade, não se podia cobrar grande literatura de uma simples mulher apaixonada e que, de fato, Clau estava apaixonada e isso era algo bonito, e não se deve pensar coisas ruins de algo tão raro e tão bonito como a paixão.

E no ônibus de volta para casa, Luis Alberto chegou à conclusão de que algo tão raro e tão bonito seria destruído para sempre porque, simplesmente, Claudia errara o endereço de seu amado Odivaldo.

E procurando a chave para abrir a porta, Luis Alberto achou que este era um motivo ridículo demais para destruir algo tão raro e tão bonito.

E logo que entrou em casa, revirou apressadamente os papéis do sofá, pegou uma caneta velha da escrivaninha e começou a escrever uma resposta rara, bonita e apaixonada.

Esqueceu-se das horas de sono necessárias para que, no dia seguinte, trabalhasse com calma e responsabilidade, e, quando o sol já raiava, terminou sua obra de arte, cada vírgula colocada de forma a enaltecer a nobreza de seus sentimentos, cada palavra inserida de forma a dimensionar sua felicidade e a reforçar sua saudade, cada Clau anotada de forma a dignificar seu carinho. Assinou Odi, que parecia um apelido possível e até não deixava o nome assim tão ruim, comprou um envelope simples, mas digno de uma paixão recém-assumida e, contente, deixou a carta no correio.

Passou o dia desconcentrado, esperando ansioso pela resposta de Claudia, que naturalmente não veio naquele dia, e naturalmente não veio também nos dias seguintes. A partir de então, não atendia mais telefonemas de parentes, não respondia mais emails de amigos, e gastava suas horas de folga sozinho, em casa, tenso por aquela carta que agora já deveria ter chegado, mas que não chegava nunca, e parecia que nunca mais iria chegar.

Duas semanas depois, a carta chegou. Confusa, mal escrita, um pouco apressada, mas rara, bonita e apaixonada, desculpando-se pelo atraso, que o tempo andava escasso, como sempre, como ele esperava, como ele conhecia. E Luis Alberto sentia que conhecia Claudia como mais ninguém.

Os dois, então, passaram a trocar cartas cada vez mais longas, cada vez mais febris, cada vez mais raras, bonitas e apaixonadas. Ele, num acesso inusitado de coragem, perguntou por que não se encontravam novamente, em São Paulo, no próximo feriado, daqui a um mês, para relembrarem a noite mágica, divina, maravilhosa que os dois tiveram naquela enorme cidade.

Ela respondeu um sim com várias exclamações, e tudo parecia perfeito.

Luis Alberto passou o restante do mês avoado, com um leve sorriso no rosto, lembrando-se do encontro que não vivera, pensando na cidade de São Paulo, a enorme cidade de São Paulo, aquele turbilhão sem estrelas onde as duas almas se encontraram, São Paulo que ele não conhecia e não deveria gostar, mas que, desde a primeira carta, já amava.

E somente no ônibus de ida, em meio à madrugada insone e ansiosa, Luis Alberto percebeu que não era Odivaldo.

Passou o resto da viagem sem saber o que fazer, ensaiando a desculpa, pensando na melhor forma de quebrar aquele pobre coração. Mas é que…A verdade…O meu amigo Odivaldo pediu…todas as frases pareciam soluções cruéis, trágicas e, principalmente, injustas, terrivelmente injustas com uma paixão de tal tamanho.

Luis Alberto saiu da rodoviária, pegou o metrô e, ainda atônito, começou a vagar pelas ruas da enorme cidade de São Paulo sem direção alguma, quase em círculos, perdendo-se por onde pudesse, como se o único caminho certo fosse o de voltar no tempo.

Mas o tempo, infelizmente, teima em andar para frente, e Luis Alberto não poderia abandonar Claudia assim, sem resposta, sem nem uma frase de consolo, ou de arrependimento, ou mesmo de vergonha, sem tomar para si toda a culpa daquela confusão ridícula, dizer para ela que seu amor ainda estava por ali, e que ele procuraria, os dois procurariam, e um dia ela iria de fato encontrá-lo, e os dois, ela e Luis Alberto, ou melhor, os três, ela, Luis Alberto e Odivaldo, iriam rir disso no futuro, ou talvez ele, Luis Alberto, nem risse, porque ela não precisaria mais dele depois que encontrasse seu verdadeiro amor.

O homem comprou então um buquê de rosas para perfumar um pouco seu triste discurso, e se dirigiu ao ponto de encontro disposto a terminar aquele romance fictício de uma vez por todas.

Chegou ao café onde combinaram se encontrar, o mesmo café no qual, meses antes, os dois se conheceram de forma tão mágica, não eles dois, naturalmente, mas Claudia e seu verdadeiro amor, que não era Luis Alberto, nem nunca seria Luis Alberto.

E Luis Alberto entrou timidamente, procurando por entre as mesas aquele rosto que não conhecia, que nunca tinha visto nem em foto, mas que parecia para ele tão familiar. No fundo, de costas, estava Claudia, com um simples e belo vestido estampado de flores, Claudia, com aquele vestido reluzente, Claudia, que ele nunca tinha visto antes, nem em fotos, mas que era ela, não podia ser outra. Ainda tímido, caminhou vagarosamente em sua direção, tocando com a ponta dos dedos em seu ombro, esperando o pior.

Claudia virou, a face marcada pelo choro, o rosto em um misto de apreensão e desespero:

– Você está mais de duas horas atrasado. Pensei que não viria…

Ela era linda. Ele, a partir de então, seria para sempre Odivaldo.

(O homem anotou mentalmente que precisava mandar uma carta aos pais avisando que, num espaço de poucos dias, iria mudar-se para São José do Rio Pardo com o novo nome de Odivaldo Pereira da Silva, Odi, para os íntimos).

E os dois se beijaram.

O Noivo – Agustina Bessa Luís

14 janeiro 2009

(Apareceu em casa, há um tempo, um livro chamado Antologia do Moderno Conto Português, não sei por quê, não sei por quem. O livro é de 1968 e, fora me deixar atualizado do que de mais contemporâneo existia na literatura portuguesa há 40 anos, pôde me apresentar pela primeira vez a literatura da Agustina, famosa aqui no Brasil por ter servido de inspiração para diversos filmes do grande centenário Manoel. Publico abaixo alguns trechos do conto, que é um pouco grande demais para um simples blog ignorante, mas que é bom demais para ser simplesmente esquecido na estante).

(…)

Separaram-se mais uma vez, depois dum desses rápidos dias de idílio em que o coração parece existir suspenso entre dois pólos de tempo. “Os teus cabelos são cor de folhas mortas” – dissera ele. As tílias marulhavam sobre as suas cabeças, vagabundos bocejavam nos bancos de ripas, a cidade estendia-se em inúmeros ramais, eriçada de tróleis, de cabos, de zimbórios e de chaminés. A poeira, em torvelinho, alcançava as copas donde caíam folhas, coando uma luz ruiva e estática. Assim passou o dia. Mas só muito mais tarde foi que ele a deixou, acenando-lhe do patamar como da amurada dum navio(…)Não vivia na cidade, e cada viagem significava para si uma política de privações, de cálculos, de economias, de riscos financeiros, como só alguém que é pobre e conhece a moeda em toda a sua raridade, é capaz de imaginar. Cada encontro com a noiva custava-lhe vigílias, meditações profundas em busca do expediente que ia concretizar a verba indispensável. Cada suspiro de amor pagava-o com canseira, espírito inventivo e energia incalculáveis. O que para outros era apenas um desejo substituível, uma manifestação burguesa dos sentidos, uma conciliação com a natureza, uma brejeirice da vida, uma anedota, um verbete, uma cólica, uma ociosidade, para si tomava o aspecto concludente duma luta, duma razão intrínseca, duma histórica forma de humanismo.

(…)

Pensava na noiva. Tinha ela uma ligeira marca de varíola na comissura dos lábios; e era isso como a depressão cavada por um permanente sorriso. Sorria ele também, pensando na noiva, e não dava por que o leito era fétido e dos lençóis se exalava um odor de imundície, de corpo humano que a pobreza marcou com esse estigma de decomposição em vida, mais odioso que a própria doença e a morte. Subitamente, adormeceu.

(…)

Tinha de partir em breve – pensava. Envolvia-o um grande frio. O quarto, atrás de si, era nu, asqueroso e frio; e o despertar de todos os escaninhos, o estiraçar de animal que se espreguiça, os bocejos torpes e engrolados, o hálito de milhares de bocas que esboçam esgares de entorpecimento e de sono, foram-lhe sensíveis por um instante, em que adivinhou, auscultou, viveu o ritmo de toda aquela grande jaula que era a cidade, com suas casas, seus becos, suas tarimbas, seus bancos verdes de jardim, com seus boudoirs, seus cinemas, burocracia, bordéis, redações de jornais e leitos Queen Anne de casais burgueses. Toda essa noção de sonolência senil, de marasmo, de fatalismo hipnótico, penetrou-o por um momento, fixou-se-lhe no espírito como uma revelação. A cidade, que era um robusto organismo prostrado a seus pés, destroçado, injetado de entorpecentes, causou-lhe terror. “Ah”, disse ele para si, “como isto parece realmente um reino de sombras, como isto acabrunha!”. E riu-se. Sentia que o seu coração estava repleto. Nem um recanto havia nele para qualquer outro interesse que não fosse o seu amor, não saberia experimentar qualquer sentimento persistente, nem piedade, nem cólera, nem medo, tanto o amor o exaltava, projetando-se como uma radiação em todos os seus nervos, na sua concepção de tempo e de verdade.

(…)

Era aquele o dia em que devia partir? Não importava isso, voltaria depois, nada poderia impedi-lo de voltar. Que eram as exigências mesquinhas, os obstáculos, as recusas, as traições, as ciladas, os atentados todos com que a vida o enredava? Donde partiam eles? De cada um daqueles seres minúsculos e buliçosos que via moverem-se sob os seus pés, girando e cruzando, torrente de formigueiro, agitação desordenada e vaga? Riu-se ainda, debruçado sobre o abismo. Dinheiro? Te-lo-ia. Triunfo? Havia de conhecê-lo. Estendia o braço, e podia tocar os cimos, podia aquecer a palma da mão sobre a mesma face do sol, tocaria o horizonte, e com o dedo traçaria o diâmetro da própria terra. Como arma, invencível, tenaz, implacável, tinha a sua paixão. Se cada homem que passava ao fundo, na correnteza da cidade, suspirando e blasfemando sob o peso do seu fardo, conhecesse o imperativo da vontade, votasse nem que fosse ao próprio inferno a sua paixão, ele resumiria em si a divindade humana, e nada lhe resistiria. Fatídicos noivados da paixão, eles são os carrascos e os redentores do mundo. São, acima de tudo, a reminiscência talvez dum estado divino que o homem pretende reconquistar.

“Não me importa ter de partir!” – disse, cheio de violência corajosa e altiva, o noivo. Tudo, junto de si, era pobreza e desolação. Os clarões pálidos do nascente derramavam-se sobre os telhados, revelando fealdades e ruínas. Apenas a luz era bela, esplêndida, com laivos irisados, com malhas de ouro e cardumes de estrelas fulgindo entre elas.

E agora há o cinema…

14 janeiro 2009

Hoje vi pela primeira vez em película o Juventude Transviada, dentro da Mostra Jovens Loucos e Rebeldes, que tá com uma programação bem bacana.

Todo mundo sabe que o Godard escreveu que o cinema é Nicholas Ray, e uma afirmação dessas é difícil superar.

Mas revendo o Juventude Transviada, eu me lembrei principalmente da declaração do Fuller no Pierrot Le Fou de que “o filme é um campo de batalha. Amor, ódio, ação, violência, morte. Em uma palavra…emoção.”

A verdade é que poucos cineastas se adequam a uma frase dessas como Ray.

Mais do que sua famosa predileção por desajustados, o que me encanta em vários de seus filmes é que os personagens parecem ciente da tragédia que suas vidas significam, da mentira do que quer que seja o sonho americano, da própria incapacidade social, moral, pessoal e ainda assim seus corpos, seus olhos, suas palavras violentam, lutam, sonham, enfim, reagem vigorosamente a tudo isso. Se normalmente a tragédia se consuma, o filme tem de relatar sempre o campo de batalha. E por isso está em um constante movimento de tensão, mesmo nos momentos mais felizes e tranquilos.

Ray é a energia presa da sociedade; Ray é a violência que insiste em explodir na hora errada; Ray é o cineasta das vísceras.

Não é por nada não, mas hoje, se tivesse de escolher meu filme favorito, possivelmente o número um estaria com In a Lonely Place.

A Magia do Cinema Pt. 1

13 janeiro 2009

Ou: da época em que Os Simpsons era bom.

Quando eu era um jovem estudante de cinema entusiasmado e começava a pensar em minha monografia, só tinha uma certeza, influenciada pelo período diário em frente à televisão entre às oito e nove da noite na FOX: queria escrever sobre Os Simpsons.

Depois eu virei um velho estudante de cinema ranzinza, passei a escrever pra Contracampo, e a monografia foi deixando de ser divertida e passou a ganhar palavras e mais palavras pomposas. No fim, o que era para ser um trabalho pequeno e engraçado sobre por que o Homer é o gênio de toda uma geração acabou levando o título de “Novas Configurações Estéticas e Narrativas no Cinema Americano Contemporâneo” (e isso só porque o “de Grandes Estúdios” que se seguiria no fim foi suprimido por falta de espaço na página).

Pois hoje, enquanto zapeava pela televisão à busca de um Family Guy (os Simpsons dos anos 2000), eis que encontro na FOX um de meus episódios favoritos do melhor desenho animado de todos os tempos.

Em resumo, um filme de super-herói hollywoodiano irá ser filmado em Springfield e Milhouse (o melhor amigo do Bart) é escolhido para interpretar o fiel escudeiro do velho herói.

Duas tiradas:

A primeira acontece no meio do episódio. Um bando de crianças encontra, no meio do set, vários cavalos pintados como vacas. Eles perguntam para os técnicos a razão disso.

A resposta é que no cinema nada é o que parece, então para mostrar um grupo de vacas, eles precisam pintar cavalos.

Então uma das crianças pergunta: – Mas e pra mostrar um cavalo?

– Ah, é só juntar um grupo de gatos.

Segunda:

No meio do episódio o Milhouse foge do set, decidido a desistir de sua carreira de ator. Bart então o encontra e tenta demovê-lo de sua decisão.

– Mas Milhouse, você está no cinema, você é um herói.

– Não, Bart, eu não sou um herói. Descobri que os verdadeiros heróis estão longe daqui, muito longe…

E Bart, após um tempo pensativo, concorda, com os olhos brilhando de certeza:

– Tem razão, na televisão!

Certas horas, me parece claro que eu fiz minha monografia sobre o tema errado…